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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Técnicos foram 'massacrados' ao tentar alertar sobre pedaladas, diz procurador

Técnicos foram 'massacrados' ao tentar alertar sobre pedaladas, diz procurador

Por: Laryssa Borges, de Brasília - Atualizado em 
O procurador Júlio Marcelo de Oliveira, durante sessão da comissão especial de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff - 08/06/2016
O procurador Júlio Marcelo de Oliveira, durante sessão da comissão especial de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff - 08/06/2016(Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
O procurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) Júlio Marcelo de Oliveira afirmou nesta quarta-feira, durante testemunho à comissão processante do impeachment, que técnicos da equipe econômica tentaram alertar a presidente afastada Dilma Rousseff sobre as irregularidades cometidas por meio das chamadas pedaladas fiscais, mas acabaram "massacrados" pelo governo. Oliveira falou durante toda a tarde aos senadores que julgam no colegiado o processo de impeachment e declarou que a petista tem responsabilidade pela maquiagem nas contas públicas e pela geração de um "superávit fictício" para omitir da sociedade a situação de penúria do Erário.
No Congresso, o procurador desqualificou a tese do advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo, de que os argumentos que embasam o processo teriam por objetivo considerar como dolosos ou criminosos quaisquer outras interpretações que não as dos próprios acusadores. "Vamos ressaltar aqui que os técnicos do Tesouro, de dentro do Ministério da Fazenda, alertaram para a ilegalidade. E não foi permitido que eles se manifestassem, foram massacrados dentro do Poder Executivo. Então, estava claro que (...) ele sabia muito bem que estava descumprindo a lei e a posição dos técnicos do Tesouro confirma isso", afirmou. "Eu não conheço uma opinião de jurista que diga que não pagar o BNDES ou o Banco do Brasil e utilizar esses recursos para outras despesas é uma prática de gestão fiscal responsável. Isso é uma fraude", completou.
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No processo de impeachment, Dilma responde a crime de responsabilidade, em um dos pontos, por ter feito pedaladas fiscais no Plano Safra de 2015. A acusação é de que o governo atrasou o repasse de 3,5 bilhões de reais ao Banco de Brasil para pagamento de beneficiários do plano de incentivo agrícola. Com isso, o BB teve de arcar com as despesas com recursos próprios para depois ser ressarcido pelo Tesouro. Essa operação de crédito, já que o governo acabou por tomar um empréstimo de um banco estatal, como o BB, é proibida pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Ao fim de 2015, por determinação do Tribunal de Contas da União (TCU), o Tesouro finalmente quitou 72,4 bilhões de reais das pedaladas que ainda estavam atrasadas. A principal consequência: rombo histórico de 115 bilhões de reais nas contas do governo.
Na avaliação de Júlio Marcelo, a prática de pedaladas fiscais no governo Dilma é "uma situação ilegal que perdurou por anos". "O uso dos bancos federais como fonte de financiamento do Tesouro é uma irregularidade clara e grave. Foi justamente essa fraude fiscal que permitiu que o governo gastasse mais do que seria possível", criticou. O procurador do MP junto ao TCU foi a primeira testemunha de acusação a ser ouvida na comissão processante no Senado.
Ele relembrou que o uso de bancos públicos para financiar entes federados foi proibido pela Lei de Responsabilidade Fiscal depois da quebradeira provocada por governos estaduais, que se valiam das instituições financeiras locais para bancar despesas correntes e disse que "é um sacrilégio a gestão fiscal responsável utilizar seus bancos federais como fonte de financiamento".
Ao longo de sua explanação, Júlio Marcelo de Oliveira afirmou que o Banco do Brasil foi "leniente" com o Tesouro Nacional ao permitir ser vítima de pedaladas fiscais e declarou que, se o episódio tivesse ocorrido na iniciativa privada, uma empresa na mesma situação do BB teria entrado com um pedido de execução da dívida não paga pelo Erário. Em depoimento aos senadores, Oliveira também disse que a situação de penúria das contas públicas é resultado direto de ações irresponsáveis como as pedaladas fiscais. "O artifício que foi utilizado para expansão do gasto fiscal implicou no aumento da dívida pública, não conhecido da sociedade, porque maquiado pela omissão do Banco Central do Brasil, implicou perda de confiança dos agentes econômicos, dos investidores, das pessoas físicas nos números da economia e no futuro da economia e na perda do grau de investimento do Brasil pelas agências de classificação de risco", declarou.
"Da forma como foi apontado pela auditoria do TCU, essa relação [entre Tesouro e BB] não é de prestação de serviços. A utilização de recursos financeiros para fazer pagamentos, como no caso do Banco do Brasil em 2015, e fazer empréstimos aos mutuários e agricultores e não receber equalização do tesouro não é prestação de serviço nenhuma. É o Tesouro apenas abusando do seu poder de controlar e não fazendo o pagamento que é devido ao Banco do Brasil", criticou. "O que o Banco Central deveria ter feito é fazer o registro adequado desse passivo, desta dívida do tesouro com o BB. Uma empresa privada não contaria com a leniência e com a tolerância do Banco do Brasil deu ao Tesouro. Nenhuma empresa ficaria com um saldo bilionário sem ser executada", afirmou o procurador.
Segundo Júlio Marcelo, a atuação deliberada do governo Dilma foi responsável pela crise de caixa nas contas públicas. Por isso, não seria possível, na avaliação do procurador, eximir a petista de responsabilidade. Uma das teses de defesa da presidente afastada é a de que o Plano Safra é de responsabilidade do Conselho Monetário Nacional (CMN), e não da alçada direta do Palácio do Planalto. "É obrigação da presidente ter consciência disso [das pedaladas fiscais]. Não podemos construir a teoria de irresponsabilidade do presidente, em que o Tesouro fica devendo bilhões aos bancos federais e a presidente se declara inconsciente do que está acontecendo em sua gestão. Ela é responsável pela gestão das finanças públicas no país. A Lei de Responsabilidade Fiscal atribui responsabilidade diretamente ao titular do Poder Executivo", explicou.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

‘A Lava Jato é um suspiro de esperança’, diz procurador

‘A Lava Jato é um suspiro de esperança’, diz procurador

AE
24 Julho 2015 

Deltan Dallagnol, da força-tarefa do Ministério Público Federal, fulmina ponto a ponto versão da Odebrecht e afirma que a Lava Jato tem o sonho de que ‘todos sejam tratados de modo igual perante a lei’

O procurador da República Deltan Dallagnol, da força-tarefa da Lava Jato. Foto: Ricardo Brandt/Estadão
O procurador da República Deltan Dallagnol, da força-tarefa da Lava Jato. Foto: Ricardo Brandt/Estadão
Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo
O procurador da República Deltan Dallagnol, que integra a força-tarefa da Operação Lava Jato, disse que a investigação sobre o esquema de corrupção na Petrobrás envolvendo cartel de empreiteiras “não tem espaço para teoria da conspiração”. Ele fulminou ponto a ponto a versão da Odebrecht, a maior empreiteira do País, cujo presidente, Marcelo Bahia Odebrecht, foi preso dia 19 de junho e nesta sexta-feira, 23, foi denunciado formalmente por corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
“Nos aproximamos da verdade por meio de provas e documentos”, disse o procurador, em alusão aos extratos bancários enviados pela Suíça que, segundo o Ministério Público Federal, comprovam que a Odebrecht pagou propinas ‘em valores elevados’ no exterior a ex-diretores da estatal petrolífera.
Em comunicado publicado logo após a prisão de seu presidente e de quatro executivos, a Odebrecht afirmou que jamais fez pagamentos ilícitos e que nunca participou do cartel na Petrobrás. ”Não existe espaço na nossa investigação para teoria da conspiração”, disse Deltan Dallagnol.
Ele disse que os investigadores da Lava Jato “têm um sonho”. ”Temos um sonho que compartilhamos com a sociedade, que todos sejam tratados de modo igual perante a lei. É um suspiro de esperança, um suspiro republicano. Se queremos que esse suspiro se torne história precisamos das 10 medidas contra a corrupção propostas pelo Ministério Público Federal”, disse, em referência ao pacote de sugestões feitas pela instituição no curso da Lava Jato.
“O nosso compromisso é que as investigações não param aqui. Vamos fazer todo o possível para apurar todos os crimes e punir todos os criminosos”, declarou Deltan Dallagnol.
O delegado da Polícia Federal Eduardo Mauat da Silva disse que o embate da Lava Jato “é profissional e técnico, embate de ideias, trabalho na técnica”. ”Esperamos que a operação (Lava Jato) não seja mais uma em que as pessoas são presas, condenadas e o dinheiro recuperado, mas não haja mudança da mentalidade.”
Mauat disse que neste caso “não existem vilões e mocinhos, mas partícipes, cada um com sua responsabilidade”.
COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ
“A Andrade Gutierrez informa que os advogados ainda estão estudando a peça apresentada hoje pelo Ministério Público Federal. No entanto, pelas informações passadas pela equipe do MPF na coletiva de imprensa, o conteúdo da denúncia apresentada contra seus executivos e ex-executivos parece não trazer elementos novos além dos temas já discutidos anteriormente, e que já foram devidamente esclarecidos no inquérito. Infelizmente, até o momento, os devidos esclarecimentos e provas juntadas não foram levados em consideração. A empresa entende que o campo adequado para as discussões, a partir desse momento, é o processo judicial, onde concentrará essa discussão, buscando a liberdade dos executivos e a conclusão pela improcedência das acusações. A empresa reitera que não pretende participar dessas discussões através da mídia.”
COM A PALAVRA, A BRASKEM
Nota de esclarecimento da Braskem
Em relação ao preço do contrato de nafta
- A negociação do contrato de nafta em 2009 foi feita pela Petrobras simultaneamente com a Braskem e com a sua concorrente à época, a Quattor.
- As duas empresas assinaram contratos com condições idênticas e, portanto, tiveram acesso a matéria-prima nas mesmas condições.
- A Petrobras é a única produtora de nafta no Brasil, sendo que Quattor e Braskem eram as únicas consumidoras por ocasião da negociação do contrato.
- Caso a Petrobras não vendesse sua produção localmente, a estatal seria obrigada a exportar a nafta, incorrendo em relevantes custos logísticos.
- Da mesma forma, caso Braskem e Quattor não comprassem nafta da Petrobras, elas teriam de importar esse volume de nafta, incorrendo, também, em custos relevantes de logística.
- O intervalo de preço contratado, entre 92,5% e 105% de ARA, representava, portanto, a melhor alternativa de comercialização desse produto, tanto para a vendedora Petrobras como para as compradoras Braskem e Quattor.
- De acordo com depoimento dado à Polícia Federal, no dia 15 de julho, já no âmbito das investigações da Operação Lava Jato, executivo do grupo técnico da própria Petrobras confirmou que “um valor estimado entre 91% e 93% de ARA não geraria prejuízo contábil à Petrobras”.
Em relação ao volume contratado e importação de nafta
- A Petrobras é a única produtora de nafta no Brasil com capacidade de produção de 11 milhões de toneladas, sendo que desde 1999 fornece aproximadamente 7 milhões de toneladas por ano ao setor petroquímico brasileiro, destinando o restante para a produção de gasolina.
- É de conhecimento público que, a partir de 2010, o congelamento de preço da gasolina no Brasil gerou um crescimento de demanda de aproximadamente 70% pelo combustível, levando a Petrobras a passar de exportadora de gasolina para importadora.
- Para resolver esse desequilíbrio no setor de combustível, que não guarda nenhuma relação com o setor petroquímico, a Petrobras tomou uma decisão unilateral de usar a nafta nacional, que estava contratada com o setor petroquímico, para aumentar a produção de gasolina.
- Para fazer frente ao seu compromisso contratual com o setor petroquímico, a Petrobras decidiu também unilateralmente importar a nafta para atender o setor industrial.
- Essa decisão da Petrobras, segundo relatório interno da Petrobras, minimizou seus custos em US$ 543 milhões.
- Dito isso, não faz nenhum sentido falar em R$ 6 bilhões de prejuízo à Petrobras a partir do conhecimento técnico do mercado de combustíveis e petroquímicos brasileiros.
- Por fim, essa questão não é assunto novo e já foi objeto de ampla discussão do setor petroquímico com a estatal e com o governo, tendo sido debatido abertamente pela Imprensa.

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