terça-feira, 26 de março de 2019

Newsletter Renova Mídia 25 de Março de 2019

Newsletter 25 de Março de 2019
 

quinta-feira, 21 de março de 2019

Investigação de fake news contra Supremo identifica suspeitos e prepara buscas

Investigação de fake news contra Supremo identifica suspeitos e prepara buscas

Thais Bilenky 
Reynaldo Turollo Jr. 
FSP
A equipe que trabalha no inquérito para apurar uma onda de ataques e fake news contra ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) se prepara para sair às ruas a partir desta quinta-feira (21).
Uma ação será para tirar do ar as contas nas redes sociais de dois dos autores identificados no caso. 
A outra busca e apreensão visa recolher computadores e aparelhos usados por operadores dessa rede.
Um guarda civil metropolitano de Indaiatuba, no interior de São Paulo, e um advogado já foram identificados pela equipe que atua no inquérito como suspeitos de estarem por trás das ações.
Os presidentes do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), durante a sessão solene de abertura dos trabalhos do Congresso Nacional - Pedro Ladeira - 4.fev.2019/Folhapress
O presidente do STF, Dias Toffoli, instaurou o inquérito, que corre em sigilo, no dia 14, e designou o ministro Alexandre de Moraes seu relator.
Desde então, houve uma redução dos ataques dirigidos aos ministros, segundo pessoas que acompanham o caso.
A iniciativa é uma resposta a postagens e mensagens ofensivas dirigidas ao Supremo por setores da sociedade, em parte incitadas por congressistas e procuradores da operação Lava Jato.
Ministros são acusados de favorecerem a impunidade, quando não de corrupção. Entre os alvos da apuração pela onda de virulência ao STF estão Deltan Dallagnol e Diogo Castor, da força-tarefa do Ministério Público da Lava Jato.
Em outra frente, no Senado, congressistas tentam instaurar uma CPI (comissão parlamentar de inquérito) para investigar eventuais desvios de ministros, apelidada de Lava Toga. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), no entanto, indicou que não levará a CPI adiante.
Nesta quarta-feira (20), senadores apresentaram proposta de emenda à Constituição que estabelece mandato de oito anos para integrantes do STF.
A decisão do Supremo de abrir a investigação motivou críticas de procuradores e reforçou o embate da corte com integrantes do Legislativo.
Na terça (19), questionado sobre as críticas de membros do Ministério Público, Moraes respondeu com expressão jocosa usada no meio jurídico. "No direito, a gente fala que é o 'jus sperniandi', o direito de espernear. Podem espernear à vontade, podem criticar à vontade. Quem interpreta o regimento do Supremo é o Supremo", afirmou (lembrem-se desta frase, ao lembrar do Ministro Alexandre Moraes).
Em despacho inicial no inquérito, Alexandre de Moraes afirmou que o objeto da investigação inclui "o vazamento de informações e documentos sigilosos com o intuito de atribuir e/ou insinuar a prática de atos ilícitos por membros da Suprema Corte".
O ministro Alexandre de Moraes durante sessão plenária do STF. Ele foi designado relator do inquérito que apura fake news, ameaças e ofensas à honra dos juízes da corte - Pedro Ladeira - 29.nov.2018/Folhapress
O despacho desta quarta-feira não menciona quais são os vazamentos, mas seu teor foi entendido como um recado para agentes da Receita Federal que supostamente vazaram, no mês passado, documentos sobre o ministro do STF Gilmar Mendes e sua mulher, Guiomar.
A Receita Federal, na ocasião, confirmou que abriu apuração interna e afirmou que não pactua com "ilações de práticas de crimes".
O inquérito aberto por Toffoli na semana passada é motivo de discordâncias entre ministros do próprio Supremo, sobretudo por dois fatores: por ele ter instaurado o inquérito de ofício (sem provocação de outro órgão), sem pedir providências ao Ministério Público, e por designar Moraes para presidi-lo sem fazer sorteio ou ouvir os colegas em plenário.
"O objeto deste inquérito é a investigação de notícias fraudulentas (fake news), falsas comunicações de crimes, denunciações caluniosas, ameaças e demais infrações revestidas de 'animus caluniandi, diffamandi ou injuriandi', que atingem a honorabilidade e a segurança do Supremo Tribunal Federal, de seus membros bem como de seus familiares", escreveu Moraes em seu despacho.
A apuração inclui "o vazamento de informações e documentos sigilosos, com o intuito de atribuir e/ou insinuar a prática de atos ilícitos por membros da Suprema Corte, por parte daqueles que tem o dever legal de preservar o sigilo; e a verificação da existência de esquemas de financiamento e divulgação em massa nas redes sociais, com o intuito de lesar ou expor a perigo de lesão a independência do Poder Judiciário".
Foram designados dois delegados para atuar no caso: Alberto Ferreira Neto, da Polícia Federal, e Maurício Martins da Silva, da Polícia Civil de São Paulo.
Ferreira Neto é chefe da Delegacia Especializada em Repressão a Crimes Fazendários, e foi indicado por Disney Rosseti, diretor interino da PF.
Silva é da Divisão de Inteligência da Polícia Civil paulista, indicado pelo delegado-geral da corporação, Ruy Ferraz Fontes.
Nesta terça, Moraes disse que pediu auxílio à polícia de São Paulo porque ela tem expertise em crimes na internet e porque há suspeitas de que haja, no estado, esquemas de financiamento de propagação de notícias falsas e ameaças.
Na noite desta quarta, o ministro do STF Marco Aurélio, que já havia criticado a abertura da investigação sem a participação do Ministério Público, voltou à carga afirmando que não deveria haver policiais civis no caso, porque a polícia judiciária que atua perante a corte é a Polícia Federal.

Ministros do STF

A mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro, o Supremo Tribunal Federal, ou STF, está no topo da organização da Justiça brasileira. Ao todo, são 11 "Guardiões da Lei", todos brasileiros natos, escolhidos dentre cidadãos com mais de 35 e menos de 65 anos de idade e nomeados pelo Presidente da República, após aprovação da escolha pela maioria absoluta do Senado Federal. 

Embates entre Judiciário e Legislativo
Inquérito
O presidente do STF, Dias Toffoli, anunciou inquérito para apurar fake news, ameaças e ofensas contra ministros do tribunal. Congressistas que criticaram o STF publicamente podem ser alvos
PEC do Mandato
Senadores apresentaram proposta de emenda à Constituição que prevê mandato de 8 anos para os ministros do STF. Hoje, os magistrados podem ficar no cargo até completar 75 anos
CPI da Lava Toga
Foi protocolado no Senado um pedido de CPI para investigar os membros do STF e de tribunais superiores
Confronto com a Lava Jato
Julgamento que definiu que caixa 2, quando associado a corrupção, deve ser julgado pela Justiça Eleitoral foi considerado derrota para a Lava Jato. 
Resultado foi criticado por parlamentares, que viram na medida tentativa de esvaziar a operação

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O risco-Flávio

O risco-Flávio

As investigações que envolvem o primogênito do presidente Jair Bolsonaro pressionam o governo. Mas até onde elas podem causar danos irreparáveis a Jair Bolsonaro? Generais se mostram incomodados. E há, dentro da equipe do presidente, quem já pense no dia seguinte

25.01.19    Caio Junqueira


A imagem da mesa com quatro cadeiras vazias e placas indicando os lugares de “Araújo”, “Guedes”, “Moro” e “Bolsonaro” na sala de entrevistas do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, mostrava que havia algo fora do lugar. A sessão de perguntas e respostas que ocorreria ali no início da tarde de quarta-feira com o presidente Jair Bolsonaro e os ministros Ernesto Araújo, Paulo Guedes e Sergio Moro fora cancelada dez minutos antes. As versões para o cancelamento foram do cansaço à agenda extensa do presidente e de seus auxiliares. Mas não era bem isso. A comitiva presidencial brasileira não queria enfrentar a previsível bateria de perguntas sobre Flávio Bolsonaro.
O filho mais velho do presidente, deputado estadual pelo Rio de Janeiro e senador eleito em outubro com a maior votação da história, viu sua situação política se agravar nos últimos dias. Primeiro veio a revelação de um novo relatório do Conselho de Atividades Financeiras (Coaf) que o apontou como beneficiário de 48 depósitos de 2 mil reais em dois meses de 2017. Depois, a informação de que seu ex-assessor Fabrício Queiroz, suspeito de recolher caixinha de funcionários de seu gabinete na Assembleia fluminense, movimentou 7 milhões de reais entre 2014 e 2017. Por fim, na esteira de uma operação do Ministério Público contra milícias, descobriu-se que o filho do presidente empregou em seu gabinete a mãe e a mulher de um dos chefes do Escritório do Crime, a mais antiga e mais violenta organização paramilitar do Rio.
A escalada de notícias negativas coincidiu com a ida de Bolsonaro pai a Davos. Após o embarque do presidente para a Suíça, o país ficou sob o comando do vice, Hamilton Mourão. O general, de partida, deu o tom da estratégia do governo para o caso: “Problema do Flávio é dele, não do governo”. Nos corredores do Planalto, sempre que eram indagados sobre o inferno de Flávio, assessores também tentavam afastar o problema. A ideia era fazer todo o possível para desvincular o caso da imagem do presidente. Na quarta-feira, começou a ganhar força o discurso oficial de que Flávio deve ser punido caso fique comprovado seu envolvimento em ilucitudes. Mourão falou em “apurar e punir se for o caso”. Em Davos, falando à agência Bloomberg, o próprio Jair Bolsonaro embicou nessa direção: “Se Flávio errou, ele terá de pagar”. A estratégia mudaria horas depois, ante a percepção de que, com ela, o filho do presidente estava sendo atirado de vez no precipício. Bolsonaro, então, recuou. Passou a dizer que os ataques a Flávio são, na verdade, uma tentativa de minar seu governo.
O esforço não foi suficiente para debelar as chamas. Inclusive internamente. Os militares que integram o governo não verbalizam publicamente, mas nos bastidores criticam a condução do caso pela família presidencial. Avaliam que o próprio Jair Bolsonaro e o filho deveriam agir mais enfaticamente não apenas no sentido de explicar o que está sob o manto da suspeita, mas também de adotar providências concretas. Por exemplo, defender mais explicitamente que o motorista enrolado seja punido. Indaga-se, em especial, por que há certa hesitação da família ao tratar das evidências que pesam contra Queiroz.
Mais do que isso, em menos de um mês desde a posse, peças importantes do governo já naturalizam as consequências de um eventual recrudescimento da crise. Chega a ser inquietante a leitura que alguns desses aliados fazem à boca miúda, como Crusoé pôde presenciar mais de uma vez nos últimos dias. Eles dizem que, caso o próprio Bolsonaro seja atingido, os riscos para o país não são tão grandes porque, numa situação limite, o vice Mourão assumiria e manteria os planos que importam (em especial na economia e na área de segurança), ao conseguir segurar no time algum ministros vitais, como Moro e Paulo Guedes.
Não há sinais de que a crise será estancada tão cedo. Há vários flancos em aberto, com potencial de dano para o governo em diversas frentes. A seguir, alguns deles.

A ligação com as milícias

À diferença do pai, cuja base eleitoral sempre esteve nas Forças Armadas, Flávio Bolsonaro centrou seus quatro mandatos como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio priorizando interesses de policiais militares e civis. Tanto que o homem forte de seu gabinete era o agora notório Fabrício Queiroz, um PM amigo da família há mais de vinte anos. Nesta semana, uma operação do Ministério Público do Rio batizada de “Os Intocáveis” acabou por trazer à tona as relações de Queiroz com uma das mais violentas milícias do Rio de Janeiro, o Escritório do Crime. 
Um dos alvos da operação era o capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, conhecido como Gordinho, líder da organização criminosa. 
A mãe dele, Raimunda Veras Magalhães, e 
a mulher, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro. 
Nóbrega está foragido. 
Mas um de seus principais parceiros, o major da polícia Ronald Paulo Alves Pereira, o Tartaruga, acusado de participar de uma chacina no Rio em 2003, foi preso, além de outros quatro integrantes do grupo. A ideia do MP do Rio é que eles façam delação premiada. Os investigadores tentarão, claro, saber até que ponto Flávio sabia ou se beneficiou da relação entre Queiroz e o Escritório do Crime. Ao longo de seus mandatos, o filho do presidente homenageou os dois milicianos na Assembleia. Ele diz que ambas as iniciativas, assim como a nomeação da mãe e da mulher de Adriano Nóbrega, partiram de Queiroz. A investigação sobre os segredos que restam da história seguirá como uma espada de Dâmocles.

As transações financeiras

A crise com Flávio Bolsonaro começou a partir de uma operação do Ministério Público Federal chamada “Furna da Onça”, deflagrada em novembro de 2018 para investigar suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro na Alerj. A partir dela, o Coaf produziu um relatório com movimentações financeiras atípicas de servidores da Casa, dentre as quais as de Fabrício Queiroz. O documento, que veio à público em dezembro, mostrou primeiro que ele movimentou 1,2 milhão de reais entre janeiro de 2016 e janeiro 2017 — 600 mil de entradas e 600 mil de saídas. Havia depósitos de vários funcionários do gabinete para ele, feitos sempre em datas próximas às do pagamento de salário pela Assembleia. As coincidências levaram à suspeita de que poderia haver um “esquema rachid” no gabinete de Flávio. Por essa razão, outra investigação foi aberta pelo MP do Rio. A Receita Federal também investigará as transações não só dos funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro, mas também dos de outros 26 deputados estaduais cujos assessores apareceram no relatório do Coaf. A ideia é cruzar as movimentações com as declarações de renda de todos. Para além desse primeiro documento tabulado pelo Coaf, o órgão (agora sob o comando de Moro no Ministério da Justiça) seguiu escarafunchando seus arquivos e constatou que as movimentações de Queiroz classificadas como suspeitas totalizavam um valor ainda maior: passaram para 7 milhões quando foi considerado um período maior de pesquisa, de 2014 a 2017. Só a mãe do miliciano procurado pela polícia depositou 92 mil reais na conta do motorista – os depósitos, nesse caso, foram feitos em espécie, em uma agência bancária localizada em frente a um restaurante do qual ela é sócia. O novo relatório do Coaf passou a abranger também transações realizadas pelo próprio Flávio Bolsonaro. Foi desse relatório que se extraiu a informação de que o filho do presidente recebeu, entre junho e julho de 2017, 48 depósitos de 2 mil reais, todos feitos em um caixa eletrônico da Alerj. Flávio Bolsonaro sustenta que o dinheiro é referente a um negócio imobiliário.

Os imóveis de Flávio

Entre 2014 e 2017, Flávio Bolsonaro registrou a compra de dois apartamentos no Rio por 4,2 milhões de reais. Antes, fez negócios que lhe renderam lucros de 260%. Comprou, por exemplo, dois imóveis em 2012 por 310 mil reais e os revendeu em 2013 e início de 2014 por 1,1 milhão. Ao explicar os sucessivos depósitos de 2 mil reais em sua conta, o filho do presidente disse que eram parte do pagamento um apartamento na Barra da Tijuca que vendera por 2,4 milhões de reais — o comprador do imóvel, o ex-atleta Fábio Guerra, confirmou que fez parte do pagamento em espécie. Flávio explicou que os depósitos dessa parcela do pagamento foram feitos de maneira fracionada, porque o caixa eletrônico só permite o limite de 2 mil reais por envelope. Faltou explicar por que um único depósito não foi feito diretamente na boca do caixa. Mais genericamente, ao explicar a origem do dinheiro que deu origem a negócios tão vultosos, ele apontou para suas atividades como empresário. O filho mais velho de Jair Bolsonaro é dono de uma franquia da loja de chocolates Kopenhagen em um shopping no Rio.

Os elos com Bolsonaro

Embora a estratégia do Palácio do Planalto seja afastar as suspeitas em torno de Flávio Bolsonaro da imagem do presidente da República, alguns pontos o aproximam da crise. O mais relevante deles é o fato de a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, ter sido beneficiária de um cheque de 24 mil reais assinado por Fabrício Queiroz. O próprio Jair Bolsonaro disse que isso ocorreu porque Queiroz lhe devia 40 mil reais por causa de um empréstimo antigo. O valor, segundo o presidente, caiu na conta de Michelle, porque ele não tinha tempo de sair para ir ao banco. Esse não é o único liame de Bolsonaro com o caso. Queiroz é amigo do presidente há mais de vinte anos. Foi ele, inclusive, que colocou o motorista no gabinete do filho. Além disso, empregou a filha de Queiroz, Nathália, em seu gabinete na Câmara dos Deputados entre dezembro de 2016 e outubro de 2018 — nesse período, ela trabalhava como personal trainer no Rio. A depender do rumo das investigações, o próprio Bolsonaro poderá ser chamado a dar explicações.

O golpe no discurso

Independentemente dos desdobramentos que o caso terá, as suspeitas já causaram danos ao governo. Jair Bolsonaro se elegeu tendo como um dos pilares centrais de sua campanha um forte discurso em favor da ética, sempre pregando o combate ao velhos vícios da política – com alusão frequente aos escândalos revelados pela Operação Lava Jato, que levou o ex-presidente Lula à prisão. Não resta dúvida de que os crimes da era petista são, em números e grau, muito maiores que as suspeitas que até aqui recaem sobre Flávio Bolsonaro. Por ora, contra ele há indícios e suspeitas. Mas é impossível negar que o caso enfraquece o discurso do presidente e dá munição a seus adversários. Além disso, pode contaminar as ações prometidas pelo governo para varrer da administração pública as práticas nefastas que corroem a política e o estado brasileiro. O golpe no discurso é reforçado pela forma como Flávio e Queiroz reagiram ao caso. O ex-assessor faltou a dois depoimentos ao MP. Sobre a primeira falta, seus advogados informaram que “não tiveram tempo hábil para analisar os autos da investigação” e que Queiroz teve uma “inesperada crise de saúde”. Na segunda falta, foi dito que ele teve de ser internado para tratar um câncer. Depois, a filha e a mulher do motorista também faltaram, sob a justificativa de que o acompanhavam no hospital. Já Flávio tomou a decisão de recorrer ao Supremo Tribunal Federal para suspender as investigações sobre o caso, que correm no MP do Rio. Para o pai, que se elegeu defendendo investigações amplas e irrestritas sobre políticos de todas as cores, doa a quem doer, é um prejuízo e tanto. E o governo não completou nem um mês ainda.

Palocci já delatou

Palocci já delatou
De propina a bordo do avião presidencial a acertos nebulosos para bancar o filme de Lula, o ex-ministro reescreve a era petista com o olhar de quem participou de quase tudo
25.01.19

Em abril de 2018, a Polícia Federal resolveu comprar uma dupla briga. De um lado, criou rusgas dentro do time da Lava Jato, em especial com os procuradores do Ministério Público. De outro, inflamou o previsível discurso do PT e do ex-presidente Lula contra os delatores que poderiam dar origem a novos escândalos envolvendo o partido em pleno ano eleitoral. No centro da confusão estava o acordo de delação premiada de Antonio Palocci, ministro da Fazenda da era Lula e chefe da Casa Civil do governo Dilma. O potencial era explosivo. Os procuradores, porém, torciam o nariz porque já haviam rejeitado a proposta de Palocci – eles avaliavam que o ex-grão-petista não tinha grandes novidades para contar. Os delegados federais discordaram e decidiram fechar eles mesmos o acordo, mais tarde homologado pela Justiça. A aposta estava certa.
Os testemunhos do antigo membro da cúpula do PT que se mostrava disposto a relatar o que viu revelam facetas surpreendentes até para quem acompanhou de mais perto as escabrosas histórias reveladas pela Lava Jato. As minúcias dos depoimentos de Palocci vêm sendo reveladas aos poucos, à medida que os investigadores vão anexando cópias dos relatos nos processos que correm no Judiciário, de acordo com o tema de cada um. O material até aqui revelado permite duas conclusões. A primeira é que, com Palocci, as apurações sobre Lula chegam a um novo patamar. Não se trata de um empreiteiro ou doleiro falando, mas de um ex-colega de Planalto do ex-presidente, ora recolhido à cadeia em Curitiba. A segunda conclusão é que, sim, os depoimentos de Palocci, somados aos arquivos que ele entregou aos investigadores, serão suficientes para alimentar novas e animadas fases da Lava Jato, tanto em Curitiba quanto em Brasília.
Vale dizer desde já que, a despeito das críticas dos atingidos, a colaboração de Palocci foi considerada efetiva pelo Tribunal Regional Federal a 4ª Região, que o colocou em prisão domiciliar. Uma segunda parte da delação também foi considerada útil pelo núcleo de investigação que, perante o Supremo Tribunal Federal, mira autoridades com foro privilegiado. Há no pacote revelações de diferentes grandezas. E que alvejam personagens de diferentes searas. Na terça-feira, o Diário de Crusoé trouxe à luz uma delas. No terceiro depoimento de sua delação, Palocci contou ter sido procurado pelo jornalista Roberto D’Ávila, a pedido do staff de Lula, para um negócio que muito interessava ao ex-presidente: levantar recursos, especialmente junto a grandes empreiteiros que mais tarde se veriam enrolados na Lava Jato, para financiar o filme “Lula, o filho do Brasil”. O ex-ministro conta que o jornalista, que era produtor do filme, sugeriu emitir nota fiscal em seu nome para os empresários que não quisessem aparecer como patrocinadores do projeto. D´Ávila nega e diz que Palocci está mentindo.
Outrora homem de confiança de Lula, o delator contou que, em pelo menos um caso, conseguiu 1 milhão de reais para o filme que, de alguma forma, estavam atrelados a benesses concedidas pelo governo. Segundo ele, o dinheiro saiu das contas da empreiteira Schahin, que tinha acabado de conseguir um tento: havia obtido a renovação de um contrato milionário com a Petrobras, graças aos préstimos de Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil. Quando ainda tentava a renovação, o dono da empreiteira, Milton Schahin, havia procurado Palocci em busca de ajuda. Palocci procurou Dilma. Deu certo. O empresário quis retribuir. Se ofereceu para pagar uma bolada para Palocci. Convidado a ajudar também o PT, aceitou a sugestão de dar 1 milhão para o projeto do filme destinado a propagandear a história do grande chefe do partido. Palocci contou que procurou, em busca de dinheiro para o projeto, os notórios Marcelo Odebrecht, Léo Pinheiro e Carlos Alberto Oliveira Andrade, da montadora Caoa.
Lula é onipresente nos depoimentos de Palocci. Ele é acusado de receber propina e de participar diretamente do acerto de caixa dois para campanhas do PT. Em um dos depoimentos, o ex-ministro relatou que Lula não tinha “o menor constrangimento” ao tratar de negociatas no governo. Palocci relata entregas de dinheiro vivo ao ex-presidente em situações curiosas, para dizer o mínimo. Em uma ocasião, diz ele, uma caixa de uísque foi usada para acomodar as cédulas de reais. Até o avião presidencial foi usado, de acordo com o ex-ministro, para transportar propina.
Muitas das revelações, é verdade, não chegaram acompanhadas de provas materiais. Mas, nas situações em que as declarações careciam dos chamados elementos de corroboração, a Polícia Federal tomou o cuidado de ouvir outras testemunhas. O próprio Palocci indicou duas pessoas que poderiam contribuir com detalhes sobre as operações de entrega de propina. Carlos Alberto Pocente, o motorista que o levava para encontros encontros públicos e secretos, citou inúmeras visitas a banqueiros. Um deles chama a atenção. Era um almoço no banco Safra. O motorista disse que Palocci chegou com sua maleta vazia, voltou com ela cheia e depois partiu para o Instituto Lula. Há outros nomes. Como Crusoé revelou, o banqueiro André Esteves é personagem central de um capítulo especial na delação de Palocci. Ele diz que Esteves atuou em operações que beneficiaram pessoalmente o PT e ex-presidente.
Em outra frente, Palocci contribui para a investigação sobre a roubalheira derivada do projeto de construção da usina de Belo Monte. A obra, com orçamento multibilionário, tornou-se uma espécie de consórcio da corrupção encabeçado pelo PT e pelo MDB. Segundo Palocci, era tudo na ponta do lápis: 1% da obra virava propina, e a propina era dividida meio a meio. O ex-ministro contou ainda que o mecanismo era avalizado pelo Palácio do Planalto. Ele cita nominalmente Erenice Guerra, ex-braço-direito de Dilma, como uma das articuladoras do esquema.
Dessa fonte de propina, diz Palocci, saía dinheiro para a família de Lula. O ex-ministro relatou aos investigadores que houve uma disputa por propinas de 30 milhões de reais do esquema de Belo Monte. A certa altura, José Carlos Bumlai, amigo pessoal de Lula, entrou no negócio. Era para participar do rateio do dinheiro. Segundo ele, com uma missão especial: Bumlai era a garantia de que parte da bolada iria para os parentes de Lula. Palocci também cita Paulo Okamotto, outro amigo do peito do ex-presidente, como um dos responsáveis por sujar as mãos na hora de pegar dinheiro que, no final, era destinado à família de Lula.
Os depoimentos prestados por Palocci à Lava Jato de Curitiba são apenas um pedaço da delação. Há uma frente paralela, baseada em Brasília, que combina PT, propina, fundos de pensão e investimentos podres. É parte da Operação Greenfield, com a qual o ex-ministro tem colaborado. Essa investigação já alvejou grandes nomes como Joesley Batista, da JBS, que depois virou delator. Agora, com o auxílio de Palocci, a Polícia Federal e o Ministério Público têm a oportunidade de avançar sobre grandes empresas e empresários do capitalismo à brasileira que prosperaram durante a era petista. Ainda há muito por vir.

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