03 Dezembro 2015 | 05h 00
A barragem se rompeu e o impasse
foi superado. Como a chantagem não colou, Eduardo Cunha aceitou pedido de
impedimento de Dilma Rousseff, e o governo terá de mostrar se tem votos para
manter a presidente no baile. Abandonado pelo PT, Cunha terá de buscar novos
parceiros no Conselho de Ética para não dançar sozinho. É uma avalanche ao
estilo Samarco, Vale, BHP. Lama para todo lado.
Parece contraditório, mas a troca
de chumbo em plenário é o cenário mais positivo. Tombe um, tombem dois ou
ninguém, ao final do tiroteio haverá um horizonte, alguma perspectiva para além
do atoleiro político atual. O pior cenário seria um impasse sem fim. A
indecisão só aumentaria o desgaste das instituições e enfraqueceria a ideia de
democracia junto à opinião pública.
Quando o Congresso Nacional não
cumpre sua função, nem a mais básica que é aprovar um orçamento para os gastos
federais, ele se torna apenas um clube frequentado por autoridades cada vez
menores, de onde só saem notícias sobre corrupção, desvio de dinheiro público e
favorecimento de lobbies espúrios. Um clube cujo acesso depende mais e mais de
doações que são – como prova cada novo escândalo – um investimento com promessa
de retorno.
Os conchavos ficaram tão
escancarados que se tornaram de conhecimento público. Há microfones, escutas,
câmeras e redes sociais demais para guardar segredo sobre conversas que antes
se limitavam a meia dúzia de poderosos. Delcídio (do) Amaral e André Esteves
que o digam. É um show de política explícita. Mas é melhor que seja assim do
que se tente represar o mar de lama.
A política existe para dirimir
conflitos sem que seja necessário recorrer à violência física. Quando ela
falha, policiais descem pancada em estudantes que não querem ver sua escola
fechada.
O único jeito de a política voltar
a cumprir seu papel é medir forças, desafogar as pressões reprimidas e arbitrar
o conflito. O maior teste disso se dará na votação (ou votações) do pedido de
impeachment de Dilma. Mas, até a batalha final, seja no plenário da Câmara ou
no da comissão especial que analisará o pedido, haverá outras disputas nas
quais governo e oposição buscarão munição: nas ruas, nos tribunais e na
narrativa.
Isso significa que a temperatura
política vai subir muito antes de começar a cair. Serão semanas e semanas de
acirramento das tensões em vários níveis e diferentes arenas. Será um período
de oscilação do dólar e das ações, de traições e bate-bocas, de compra de
votos, de uso da caneta amiga e de muita bajulação a togados. Mas o calendário
para a crise é o começo do seu fim.
Para a oposição, a crise só acaba
se Dilma cair. Mas, se o governo conseguir reunir os votos necessários e
segurá-la na cadeira, a ameaça do impeachment deixará de assombrar toda e
qualquer decisão presidencial. Será uma forma de retomar a governabilidade
perdida. Foi o que aconteceu com Bill Clinton em 1999 nos EUA. Por isso,
qualquer que seja o final da história, haverá um desfecho, e não uma crise
permanente como ocorre hoje.
Desde os protestos de rua de junho
de 2013, o Brasil enfrenta um conflito não resolvido entre a sociedade e o
sistema político que a representa. As eleições presidenciais de 2014 não foram
suficientes para superá-lo porque – entre outros motivos – os derrotados não
aceitaram a derrota, e os vencedores não souberam consolidar sua vitória.
Assim, o ano político de 2015 foi uma extensão da disputa eleitoral de 2014,
que, por sua vez, começou em 2013.
Em 2016, as tensões serão, enfim,
liberadas, e o País, com alguma sorte, poderá chegar a uma nova acomodação de
forças. A política deixará de ser essa lama tóxica que sufoca a economia. E,
como se trata de Brasil, ainda é capaz de o calendário político coincidir com o
Carnaval. Pode acabar em folia.
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